"Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos.Mas, uma tempestade sopra do paraíso e prende as suas asas com tanta força que ele não pode mais fechar-las" (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito de História)
5 de dez. de 2011
Entre sonhos e amores perdidos
20 de mai. de 2010
A Construção da possibilidade


Destino passeia por um jardim de possibilidades, onde os tempos coexistem e o presente é síntese dos três tempos. O que foi, o que é, o que será e até mesmo o que não foi, o que não é e o que não será habitam o jardim do Destino.
Ele passeia sem olhos, acorrentado ao seu livro ou seu livro acorrentado a ele. No livro está escrita a História, as possibilidades escolhidas. As páginas demoram a ser viradas. As possibilidades são infinitas, mas, aquelas que foram escolhidas constroem a História.
Ele é o irmão mais velho, o primeiro. Estava lá para virar a primeira página e estará lá para fechar o livro, antes que Morte apague as luzes.
Ele não enxerga quais escolhas serão feitas, apenas as conseqüências das escolhas. Ele não olha para História de maneira fixa e acabada. A História é a construção de possibilidades. Não lamenta os rumos tomados, não interfere na construção. Seu livro sempre está aberto no meio, inícios e fins não despertam a curiosidade do Destino. Destino se interessa pela travessia.
19 de mai. de 2010
O Coração da Estrelas


Destruição reside no coração das estrelas, isto não e uma metáfora. Explosões de super-novas, explosões no sol. É a constante destruição que permite a existência da vida. Transmutação só existe por conta de Destruição, ele impede a estática do mundo. Não existe inércia em seu coração.
Ele não precisa se impor as criaturas como Desejo, não precisa pescar homens como Desespero, não espera visitas como Sonho, não tem obrigações com a Morte, não precisa observar nada como Destino. Então Destruição se torna o melhor irmão, o melhor amigo, aquele que sempre queremos próximo.
Mas, ele Destruição resolver se recriar, para isso abandonou o coração das estrelas. Seguiu novos rumos, se permitiu. Agora buscar a arte, entende que tudo é travessia.Não importa quais são as causa e quais serão as conseqüência, tudo é Destruição, tudo é criação.
Os Perpétuos mudam, mas, apenas Destruição escolheu mudar, ou seja, destruir o seu eu, para se criar nos Outros. E é na travessia que isto é possível, por isso a escolha da estrada. Ele vive sem rumo, longe dos irmãos. Entendendo que o caminhar produz o caminho.
Inércia


Desespero, pele cinza, enrugada, cabelos sujos, olheiras, caninos a mostra, nudez, um corpo baixo e gordo, ratos, seios caídos, barriga enorme. Um anel com anzol que é arrastado pelo corpo, sangue. Cicatrizes. Dor. Voz rouca e arrastada. Desespero.
O anzol que carrega no dedo busca o coração. Os seres são os alvos. Desespero é alheio aos dramas, as ações. Ela habita os desacontecimentos, o cotidiano, ela espreita a travessia. Ela é o Perpétua que está a tua espera. Não habita no surpreendente, não está nos acontecimentos.
Ela está além do bem e do mau, certo ou errado não existe. Para Desespero não existe solidão, uma vez visto que a solidão só existe diante do Outro. Desespero destrói a dimensão do outro para destruir a dimensão do eu. Eu sou o primeiro Outro, o fim disto é Desespero.
Desespero é a inércia do coração.
18 de mai. de 2010
Viver é difícil, perigoso e não é preciso


“Seu quebra-cabeça não tem limites de peça. Sua astúcia está na costura que segura o balanço do corpo. Arquiteta o exílio da possibilidade de escrever sobre a morte, de não experimentá-la. O direito ao delírio é humano, silencioso ou histérico” (Antonio Paulo Rezende, Ruídos do Efêmero)
Há muito tempo atrás Delírio era Deleite, a mais jovem dos Perpétuos quase nada conhecemos da Deleite. Apenas sabemos que a sua confusão a levou ao abraço de Destruição, encontro este que mudou Deleite para Delírio.
Ela é irmã caçula dos Perpétuos, a sua travessia é mudança constante. Sua aparência é apropriada ao seu modo-de-ser. Cabelos pintados e longos de um lado e careca do outro, olhos de cores diferentes, combinações de roupas estranhas e peixes e borboletas voam ao redor de sua cabeça. O seu falar é representado por balões contendo as cores do arco-íris e não tem uma tipografia de letras uniformes. Esta é a beleza do Delírio.
Tudo é mudança, não existe permanecias em Delírio. É preciso conviver com ela com cuidado, é preciso experimentar, mergulhar no seu coração. Porém, o perigo é grande. Eu não tenho medo de ir ao encontro de Delírio, o medo está em não querer voltar. E ai que reside uma das dificuldades de viver dita por Guimarães Rosa, ou o não preciso de Fernando Pessoa.
Por isso que Delírio é um direito e não um dever.
Desejo


O/A Desejo de todos os Perpétuos é o que mais é difícil se relacionar. O que desejamos muitas vezes não é a chave da construção da felicidade. Desejamos o Outro, mas, não a dimensão do que o Outro representa. Desejamos o Outro como coisa, são todos objetos que aprisionamos para construir caminhos de seguranças que nos afastam da construção da possibilidade.
Desejo é visualmente instigante, pois, Desejo é os dois sexos ao mesmo tempo. Desejo é irmão/irmã dos Perpétuos. Sua melhor representação seria entre Desespero e Delírio. Mas, sua relação mais intensa é com Sonho. Esta relação é um retrato pós-moderno do desejo e do sonho, que em um passado distante eram os irmãos mais próximos entre os Perpétuos.
O sonho é filho de anseios, amores, ódios infernizados; cada dia mais o desejo é imposto pelo mercado, por nossas relações coisificadas. A/O Desejo foi mudada (o) na construção dos valores modernos. A obrigação que nós mesmos criamos para nós mesmo é de realizar o desejo.
Desejávamos por ser incompletos, agora desejamos para se completar. Mas, nunca precisamos ser completos e é neste mundo que o/a Desejo se torna perigosa (o).
Este/ Esta desejo não pode ser próximo ao Sonho, mas, é próximo cada dia mais de Desespero.
Travessias


“Não se vive nem pouco nem muito só vive o tempo de uma vida”. A Morte é a criatura que mais entende da vida. Sonho precisa de seus conselhos por isso e por ser sua irmã mais velha.
Representada como uma garota muito bonita, com calma e simpatia é guia na travessia. Não importa o que você fez em vida ou para onde vai na morte, a Morte se preocupa apenas com a travessia. E a Morte é companhia ideal para a travessia.
Destino entrega a chave, Morte desliga as luzes e tranca a porta é imagem da travessia que nem mesmo os Perpétuos sabem aonde vão levar, pois, o caminhar é que faz caminho.
Viver e morrer é condição de todos que habitam o universo, mesmo os Perpétuos no fim se depararam com a sua irmã cumprindo seus afazeres. Porém, eles não podem morrer por completo, pois, cada Perpétuo é um conceito que é imortal. A imortalidade dos conceitos não implica em uma permanência contínua, os conceitos sempre estão sujeitos a transformações. Os conceitos estão vivos e viver é estar em constante transformação. Nem mesmo a morte não escapa disto.
Acordando para o infinito


Morpheus, Sandman, Lorde Modelador, Sonho. “Conheces todos os nomes que te deram, tu não precisas conhece o que tu tens” (Saramago, Todos os Nomes). Sandman, o sonho em pessoa, é uma das psiques mais complexas produzidas nos quadrinho não podemos entendê-lo tal como ele é, podemos apenas criar interpretações sobre o Sonho.
E dentre os nomes dados ao Sonho o que me chama mais atenção é de Lorde Modelador, pois, se não é o sonho o modelador de nossos mundos o que mais seria? Dos irmãos Perpétuos é o que mais visitamos, tendo em vista que Destino e Morte sempre estão conosco. Sonhamos, visitamos o Lorde Modelador e depois já não somos mais os mesmo. O sonho é travessia.
O ser humano deixa de ser trágico e passa a ser épico no coração do sonhar. Sonhar é acordar para o infinito. Pois, ao olharmos nos olhos do Lorde Modelador é possível ver o brilho do cosmos, que são estrelas que brilham para nos alegrar apenas quando morrem e renascem na vastidão do espaço que é tudo, mas, tão distante para os homens que se transforma no nada.
O Sonho era muito próximo a Desejo, irmãos que consideravam os seus reinos vizinhos em outro tempo. Quando na verdade não são, sonhar é fim em si mesmo enquanto o desejar compele os seres humanos a saciar o desejo. Esta relação é explorada em até mesmo em tons de vilania ao decorrer de Sandman.
Sonhar é buscar o infinito, não para possuir, mas, para dançar com as estrelas a dança do cosmo.
16 de mai. de 2010
Sandman e a Narrativa em Aberto


“Com um punhado de areia eu mostrarei o horror a vocês”. Assim começa a história em quadrinhos que modificou a História das histórias em quadrinhos, ao trazer o conto de fadas narrado em quadrinhos para o mundo adulto.
Sandman, personagem que dá nome a história, é o próprio Sonho (Dream), não o deus do sonho, mas, o próprio sonho personificado assim como os seus irmãos Destino, Desejo, Delírio, Destruição, Desespero e Morte (Death), juntos eles são os Perpétuos. Cada um é o que o seu nome representa, não são deuses, são algo mais antigo onde até os deuses passam a viver com os Perpétuos. Pois, neste universo todos nós sonhamos, desejamos, nos desesperamos, destruímos, deliramos, criamos ou somos criados pelo nosso destino e por fim morremos.
Sandman acumula vários nomes e acumula imagens, estas formas são reflexos de quem o ver. E seu nome mais interessante é Lorde Modelador que nome que seria o mais apropriado ao sonho.
Apesar de longa Sandman é uma história que chegou ao fim, mas, não é um fim definitivo. Segundo o seu próprio autor a história do Lorde Modelador é uma história sobre transformação, sobre a “travessia” tal o qual Grande Sertões Veredas, onde a origem e o fim do Sonho não importa. O importante é entender que viver é estar em constante transformação.
Os personagens são conceitos e suas relações são metáforas, isto é o que constrói a beleza da história. Em algum momento da história é preciso encontrar Destruição, mas, este encontro só é possível se Sonho e Delírio resolverem buscar-lo, Sonho e Desejo vivem em uma tensão de amor e ódio, Morte e Sonho são os irmãos mais próximos, Destruição reside no coração das estrelas...
Esta é uma história aberta, passível de muitas interpretações e ainda mais tendo como matéria prima o onírico esta característica é alçada aos extremos. Através de Sandman podemos pensar a vida nesta mesma perspectiva, a História é um campo aberto para as interpretações e assim não podemos falar de verdade, mas, de verdades que se acumulam, se acotovelam, se desenvolvem em uma dialética de tensão, mas, sem nunca serem contraditórias ou excludentes.

