18 de mai. de 2010

Acordando para o infinito



Morpheus, Sandman, Lorde Modelador, Sonho. “Conheces todos os nomes que te deram, tu não precisas conhece o que tu tens” (Saramago, Todos os Nomes). Sandman, o sonho em pessoa, é uma das psiques mais complexas produzidas nos quadrinho não podemos entendê-lo tal como ele é, podemos apenas criar interpretações sobre o Sonho.

E dentre os nomes dados ao Sonho o que me chama mais atenção é de Lorde Modelador, pois, se não é o sonho o modelador de nossos mundos o que mais seria? Dos irmãos Perpétuos é o que mais visitamos, tendo em vista que Destino e Morte sempre estão conosco. Sonhamos, visitamos o Lorde Modelador e depois já não somos mais os mesmo. O sonho é travessia.

O ser humano deixa de ser trágico e passa a ser épico no coração do sonhar. Sonhar é acordar para o infinito. Pois, ao olharmos nos olhos do Lorde Modelador é possível ver o brilho do cosmos, que são estrelas que brilham para nos alegrar apenas quando morrem e renascem na vastidão do espaço que é tudo, mas, tão distante para os homens que se transforma no nada.

O Sonho era muito próximo a Desejo, irmãos que consideravam os seus reinos vizinhos em outro tempo. Quando na verdade não são, sonhar é fim em si mesmo enquanto o desejar compele os seres humanos a saciar o desejo. Esta relação é explorada em até mesmo em tons de vilania ao decorrer de Sandman.

Sonhar é buscar o infinito, não para possuir, mas, para dançar com as estrelas a dança do cosmo.

16 de mai. de 2010

Sandman e a Narrativa em Aberto




“Com um punhado de areia eu mostrarei o horror a vocês”. Assim começa a história em quadrinhos que modificou a História das histórias em quadrinhos, ao trazer o conto de fadas narrado em quadrinhos para o mundo adulto.

Sandman, personagem que dá nome a história, é o próprio Sonho (Dream), não o deus do sonho, mas, o próprio sonho personificado assim como os seus irmãos Destino, Desejo, Delírio, Destruição, Desespero e Morte (Death), juntos eles são os Perpétuos. Cada um é o que o seu nome representa, não são deuses, são algo mais antigo onde até os deuses passam a viver com os Perpétuos. Pois, neste universo todos nós sonhamos, desejamos, nos desesperamos, destruímos, deliramos, criamos ou somos criados pelo nosso destino e por fim morremos.

Sandman acumula vários nomes e acumula imagens, estas formas são reflexos de quem o ver. E seu nome mais interessante é Lorde Modelador que nome que seria o mais apropriado ao sonho.

Apesar de longa Sandman é uma história que chegou ao fim, mas, não é um fim definitivo. Segundo o seu próprio autor a história do Lorde Modelador é uma história sobre transformação, sobre a “travessia” tal o qual Grande Sertões Veredas, onde a origem e o fim do Sonho não importa. O importante é entender que viver é estar em constante transformação.

Os personagens são conceitos e suas relações são metáforas, isto é o que constrói a beleza da história. Em algum momento da história é preciso encontrar Destruição, mas, este encontro só é possível se Sonho e Delírio resolverem buscar-lo, Sonho e Desejo vivem em uma tensão de amor e ódio, Morte e Sonho são os irmãos mais próximos, Destruição reside no coração das estrelas...

Esta é uma história aberta, passível de muitas interpretações e ainda mais tendo como matéria prima o onírico esta característica é alçada aos extremos. Através de Sandman podemos pensar a vida nesta mesma perspectiva, a História é um campo aberto para as interpretações e assim não podemos falar de verdade, mas, de verdades que se acumulam, se acotovelam, se desenvolvem em uma dialética de tensão, mas, sem nunca serem contraditórias ou excludentes.

14 de mai. de 2010

A estética da crise





Deveríamos entender as crises como momentos de construção de possibilidades, onde as situações se redefinem, na qual a possibilidade não apenas é construída, mas sim realizada. O universo Marvel nos últimos anos tem entendido esta condição da própria História humana e a partir daí tem construído suas histórias. Massacre Marvel, A Era do Apocalipse, Guerra Civil, Invasão Secreta, House of M, Reinado Sombrio e agora temos Cerco Marvel.

As ultimas crises da Marvel destruíram certezas, destruíram as diferenças entre heróis e vilões, fazendo pensar que tudo é sempre uma questão de ponto de vista. Antes assistíamos os heróis se digladiarem contra os vilões que desejavam ficar ricos, conquistar o mundo ou qualquer outra coisa do tipo, agora estamos diante de novas possibilidades. Em Guerra Civil vimos heróis se enfrentando para defender seus pontos de vistas, não existe mais certo ou errado.

Não temos mais verdades, em Cerco Marvel o vilão Duende Verde/Normam Osborn acaba assumindo o controle da organização que controla os heróis, criada no fim de Guerra Civil. Por pouco este vilão iria ser capaz de salvar a Terra de criaturas com poderes incontroláveis, Hulk, Justiceiro, X-man...Mas, ninguém pode salvar a Terra.

É a partir da crise que Marvel reelabora seu mundo, Cerco é uma destas crises. Diante do mundo sombrio que a Marvel vivia, Cerco construiu a Era Heróica que possivelmente será próxima crise deste universo.

É preciso aceitar a angustia da crise, pois, como já pregava o filosofo Heidegger a angustia é um encontro consigo mesmo e a verdadeira solidão, que é a matéria prima da mudança. Aceitar a angustia é aceitar o vir a ser, no qual tudo é possibilidade.

Quando tudo é possibilidade a salvação também se faz possível.

13 de mai. de 2010

Sem Salvação




Em um combate, o medo é uma arma que não pode ser desprezada. Aldo “o Apache”, líder dos Bastardos Inglórios, leva esta idéia para a 2º Guerra Mundial.

Os Bastardos são um pequeno grupamento formado por judeus que em 1941 atravessam a fronteira da guerra para combate os nazistas na França. Porém, estrategicamente este grupamento não tem nenhum objetivo ligado diretamente para dar fim a guerra. Seu objetivo é levar o terror as tropas inimigas. Estes heróis não oferecem salvação, apenas o terror. O medo é a principal arma destes judeus errantes.

Assim, estes heróis encontram o caminho da salvação, ao abandonar a esperança do messias. A espera do messias é uma das características mais importantes da religiosidade judaica, apenas, quando estes heróis superam sua condição inicial é que eles se forjam heróis.

Tal quais as aberrações: Hulk, Motoqueiro Fantasma, Spawn... A espera judaica da salvação é uma aberração que entrava a cultura ocidental. Apenas ao abandoná-la os Bastardos Inglórios conseguem trilhar o caminho da salvação. Chegando ao ponto de conseguir em uma das cenas mais fantásticas do cinema matar Hitler e todos os altos membros do partido Nazista.

“Ninguém vem tem salvar” é este o caminho da salvação.

7 de mai. de 2010

Destruição


O universo dos heróis é povoado de aberrações, Motoqueiro Fantasma, Spawn, Hulk... Estes heróis não são apenas filhos de suas tragédias, mas, são a própria tragédia.

A liberdade para o heroísmo deste tipo de herói está vinculado a construção da possibilidade, primeiro eles devem criar uma possibilidade de fuga de sua própria condição de monstro/aberração para a partir daí ter a chance de escolher o caminho do heroísmo.

O grande inimigo deste tipo de herói é ele mesmo, precisam de se destruir para se recriarem. Tal qual o caminho que nos, os seres humanos de verdade, deveriam percorrer. Destruindo-se e recriando-se.

Por muito tempo esperamos o progresso, mas, ele não virá. Precisamos recomeçar terminar, recomeçar... Não existe um progresso capaz de nós salvar, apenas a destruição pode nós colocar em uma nova possibilidade.

Assim como estes heróis precisamos se destruir para se recriar, não é fácil, mas, é necessário. Consideramos estas aberrações heróis por essa capacidade.

Ninguém para te salvar

Os super-heróis oferecem a salvação para uma humanidade que é apática ao seu próprio drama, os trágicos heróis querem salvar a humanidade ao lutar com suas próprias tragédias. Desta forma não existe ninguém para te salvar. Existe salvação para quem aceita a proposta fascista do Bataman “Dark Kingth”.

A sociedade é apática para aqueles heróis que tentam simbolizar algo, aquele que tentar ser o melhor, a tragédia não pode ser compartilhada, pois, somos solidão radical e isto em ultima estância permite que compreendamos a tragédia, mas, impossibilita o compartilhamento da dor destas tragédias.

Esperamos por Deus, por gladiadores, por santos, por Marx, por heróis... Mas, nada é capaz de nós salvar. Estamos sós e ponto final.

É preciso aceitar a tragédia, entender que as nossas falhas são partes da nossa humanidade, que somos para a morte. O caminho trágico do herói é a possibilidade aberta para a salvação, jamais o próprio herói será capaz de salvar a humanidade.

3 de mai. de 2010

Coração de Aço

O Tempo é agora
Para o Homem de Ferro expandir o medo
Vingança vinda da Lápide
Matando as pessoas que um dia salvou

Ninguém o queria
Eles só viravam as cabeças
Ninguém o ajudava
Agora ele tem sua vingança

(Black Sabath)

O Homem de Ferro é um dos heróis da Marvel que causa mais empatia com o público, isto aliado a uma boa interpretação de Robert Downey jr, o herói em questão tem estado nos holofotes tanto no cinema quanto nos quadrinhos. O grande poder de venda deste personagem é a empatia, mas, quem não conhece o herói pensara que a empatia é fruto das ações altruístas, da vontade de superação, da busca de ser um homem melhor, de marido melhor, de um filho melhor e de um herói melhor.

Tony Stark (o homem dentro da armadura) é um playboy, narcisista e egocêntrico, que não precisa ter preocupações com identidade secreta, com parentes para proteger, com emprego. Ele só precisar ser herói e ganhar dinheiro com sua empresa bélica. O Homem de Ferro é o oposto do Homem-Aranha, que busca ser o melhor em tudo. O Homem-Aranha é um dos heróis mais populares da Marvel.

Homem de Ferro é o mais humano dos grandes heróis da Marvel, cheio de defeitos e ainda por cima sofre com alcoolismo. Humano demasiadamente humano é o que pode ser dito do Homem de Ferro. A empatia do Homem de Ferro é construída através dos defeitos, mas, também do bom humor.

Tão humano é o Homem de Ferro que ele não oferece a ninguém a salvação, não que ser símbolo de nada, ele apenas quer concertar os erros cometidos pela sua empresa. Ele combate a sua tragédia e só, sem lamentações, bebendo para esquecer e esquecendo para lutar.

18 de abr. de 2010

Salvação Total

Quantas estradas um homem deve percorrer
Pra poder ser chamado de homem?
Quantos oceanos uma pomba branca deve navegar
Pra poder dormir na areia?
Sim e quantas vezes as balas de canhão devem voar
Antes de serem banidas pra sempre?
A resposta, meu amigo, está voando no vento

(Bob Dylan)

Os heróis de quadrinho (e também no cinema) nas melhores histórias dos últimos anos não lutam mais contra vilões maléficos e vis. Eles passam a confrontar propostas de salvações diferentes para a sociedade, Watchman, V de Vingança e até mesmo no Batman[1]. Estas propostas são levadas ao extremo em Constantine (tanto no cinema quanto na HQ)

Na trama John Constantine se encontra em meio à guerra entre Deus e Diabo, sem fé alguma ele está destinado à danação eterna, porém, para tentar se salvar ele passa a lutar pelo lado Deus, tentando, assim, conquistar seu lugar no paraíso. E entre Deus e Diabo existe uma regra o combate será decidido por quem conseguir conquistar a humanidade de forma indireta.

Gabriel reside entre os homens, porém, em seu intimo não suporta o que a humanidade se transformara, para ele, esta humanidade não é digna do amor que recebe de Deus. Seu plano é tornar os homens digno deste amor.

Gabriel, então, elabora o plano de consiste em liberta o filho de Lúcifer[2] trazendo o inferno para terra, pois, para Gabriel, apenas nos momentos de maior sofrimento o homem é capaz de se mostrar nobre. Ou seja, para salvar a humanidade milhões terão de sofrer. Para Gabriel não existe criação sem que para isso exista a destruição.

Constantine por mais egoísta que seja não consegue aceitar este plano e partir para o combate a Gabriel.

É interessante ver um herói que tenta impedir a salvação da humanidade, pois, não se trata de um choque de proposta como Batman X Coringa, mas, sim um herói egoísta que não tem nem vontade e nenhum plano para salvar a humanidade contra um anjo que deseja tornar os homens dignos da salvação.

Para Gabriel não resta dúvidas que a humanidade não precisa ser salva do inferno, mas, ela precisa ser salva de si mesmo. Não restam dúvidas que para Gabriel que o inferno são os outros.

Para o público o sacrifício para ser alto demais, o fascismo de Batman e Watchman é mais aceitável que a salvação de Gabriel. Porém, em nenhum aspecto podemos acusar Gabriel de deformador da humanidade tal como Batman[3] e Ozzymandias[4], ele é um criador e como o nascimento humano é precedido de dor este novo amanhecer também será.



[1] O Coringa tenta instalar o caos como a única forma de superar a atual conjectura social.

[2] Deus tem Jesus, não seria justo se o Diabo não tivesse um rebento.

[3] Em Dark Kingnight

[4] Anti-herói de Watchman

8 de abr. de 2010

Salvação e Vendeta


Muitas são as histórias que a vendeta é o centro das ações, para não recuar muito ao passado um dos marcos deste tipo de história é o Conde de Monte Cristo que serviu de inspiração para V de Vingança.

Em V de Vingança somos levados para uma Inglaterra de um futuro mais próximo do que gostaríamos, existi uma ditadura fascista na Inglaterra que se estabeleceu através do medo. Porém, este medo foi deliberadamente construído pelos membros de partido fascista em questão, o plano foi usar uma assustadora arma química contra o próprio país e culpar mulçumanos pela morte de mais de 15 mil pessoas. Os alvos escolhidos aumentavam a catástrofe: Um colégio, uma estação de metrô e uma unidade de tratamento de água.

A ditadura instalada se sustenta pela força, controlando os meios de comunicação, toque de recolher, ajuda da igreja, mas, o fator mais importante é a conivência e permissividade do povo.

Ai que entra em ação o nosso Herói que em linhas gerais se apresenta apenas como alter-ego, seu nome é apenas V, mas, como ele mesmo diz: “eu sou um resquício de Vox populis”, Na ver versão cinematográfica esta característica é ainda mais marcante.

Sozinho V não acaba com a ditadura, sozinho ele apenas consegue ter sua vingança pessoal. A função dele na história não é ser o messias, mas, sim ser o Zaratrusta de Nietzsche, aquele que anuncia o homem-que-supera-o-homem, então, V precisa mostrar que existe algo errado na forma política adotada.

Ao longo de um ano V ínsita o povo a não aceitar a situação de falta de liberdades individuais, através de atos de terrorismo V abre caminho para o povo mudar a situação. Sem mostrar vacilação ele destrói prédios históricos, invade prédios com dinamite envolta do corpo e invade a programação de TV estatal para dizer a sua mensagem.

Apesar de nosso herói não ser o salvador e a partir dele que salvação é construída, mostrando que é possível a própria humanidade se salvar (dentro do possível é claro).

3 de abr. de 2010

Complexo de Messias II


Ele desceu dos céus, porém, a salvação por ele proposta não é o que esperávamos...

Esta é premissa de SuperGod (Hq muito interessante que ando lendo). Os governos geraram criaturas super-humanas, nas quais depositaram a fé de nossa salvação. A Índia foi a primeira que tentou por em prática a sua salvação, o seu super-herói. Ele teria de combater a poluição e encontrar um jeito para o problema da superpopulação, então, ele chegou à conclusão lógica que para salvar a Índia teria de diminuir a população em 90%. Com poderes ilimitados o Deus/Super-Herói inicia o genocídio indiano.

As demais potências reagem cada Deus/Super-Herói é enviado para a Índia e mundo acaba.

Os heróis criados a partir das feições humanas são incapazes de salvar a humanidade por ser parte dela. É preciso salvar a humanidade dela mesma.

Por isso que Batman e Watchman não conseguem nós salvar de fato, apenas contando uma mentira. Esta salvação é deformação da humanidade, apenas assim, estes heróis conseguiram salvar os homens.

Porém, salvar a humanidade com fascismo é um preço alto demais.

Complexo de Messias

Entre fascismo e heróis onde foi parar o sonho americano?
Segundo o Comediante: "Ele se realizou!", isto que temos como centro de discussão é resultado da história americana, o self-made-man levou os heróis ao olho do furacão ou será algo mais profundo? ou será que os homens buscam messias humanos e super-humanos ao mesmo tempo?
Para tanto criamos deuses que são nossas imagens e semelhanças, sempre atribuirmos a salvação aos outros que são nós mesmo.
A história do messias é o próprio desejo de salvação da humanidade, Jesus era o super-man de seu tempo, enquanto, esteve ausente da história (dos 12 aos 33 anos) ele era o Clark Kent.
Mas, porque, precisamos ser salvos?

27 de mar. de 2010

Os tempos, eles estão mudando

Venha se reunir povo por onde quer que andem
E admitam que as águas que nos cerca se elevaram
Aceitando isto
Logo estaremos ensopados até os ossos
Se o tempo para você vale salvar
Então é melhor começar a nadar
Ou você afundará como uma pedra
Pois os tempos, eles estão mudando (Bob Dylan)

É verdade: os tempos, eles estão mudando. Assim começa a adaptação cinematográfica de Watchman. Colocando-nos a questão vale a pena à salvação a qualquer custo?

O cenário é os Estados Unidos dos anos da década de 1980, porém, a história tinha tomado outros rumos (por que o tempo, eles estão mudando). Os Estados Unidos não perderam a Guerra do Vietnã, Richard Nixon permanecera na presidência, a Guerra Fria não dá sinais de fraqueza e a hecatombe nuclear é cada dia mais eminente. O relógio do fim do mundo marca 23h55min.

Neste mundo ser herói é literalmente proibido pela lei. Os vigilantes foram proibidos de exercer seus atos de heroísmo. As crianças não lêem quadrinhos de heróis[1] preferem ler histórias de piratas[2].

Para completar a construção deste mundo as ruas são escuras e sujas, o tempo é chuvoso, a maior parte das cenas se passa a noite. Ao longo do filme as mídias são usadas para reafirmar que estamos na porta do fim do mundo.

Neste mundo os Watchmans são os filhos do meio da história. Não podem mais exercer sua função, tendo de passar a encarar o mundo como um observador, com exceção de Rorschach (que não respeita a lei de proibição de vigilantes) não existe mais heróis e a população se sente mais tranqüila assim.

Rorschach, o único herói, é paranóico, tem tendências políticas conservadoras, violento e se usa de qualquer meio para combater o crime, porém, é completamente incorruptível e implacável. Um herói pós-moderno.

Os demais tentam viver vidas mais normais, o Comediante e Dr. Manhatthan atuam para governo. O que implica a dizer que ninguém mais combate o crime. Pois, até mesmo o herói é um fora da lei.

Dr. Manhatthan neste mundo é um resultado acidental do projeto Manhatthan, que lhe concedeu poderes sobre a fissão nuclear, o controle sobre a matéria e uma visão de mundo baseada na teoria da relatividade, lhe conferindo poder de um deus e nenhum outro herói tem poderes. Porém, este poder de deus consumiu sua humanidade o fazendo cada vez mais distante dos demais.

A cada minuto do filme sabemos que o fim está próximo. Ao saber isso o mais bom-moço dos heróis Ozymandias resolve agir. Porém, não mais como um herói, mas, como a única forma possível de impedir o fim do mundo.

Não revelarei como, mas, o plano de Ozymandias é forjar um ataque as cinco principais metrópoles do mundo, fazendo a culpa recair nas costas do Dr. Manhattahn, que a esta altura da história já não estaria mais no planeta Terra, fazendo assim as potências se unirem contra um inimigo em comum, um Deus.

O plano é descoberto por Rorschach, Coruja, Spectral (que ao longo da trama reassumem suas identidades de heróis) e Dr. Manhattahn, mas, já era tarde demais, era impossível reverter o plano e quinze milhões de pessoas morrem, mas, o plano funciona, Capitalismo e Socialismo se unem e o mundo foi salvo. Porém, a que custo? A base de uma mentira e de um genocídio.

Ai reside o grande e ultimo impasse os personagens têm de escolher entre conta a verdade e colocar o mundo mais uma vez em cheque, ou, assumir a mentira e manter o mundo a salvo da luta entre as potências. Os fins justificam os meios?No filme a resposta é sim, mas, sem atribuir valor a isso.

Porém, a questão em si não mais a obra e sim o público que aceita a proposta de Ozymandias, mentira e genocídio, ou, o velho fantasma do fascismo que assombra minha mente e coração.

Deve haver algum jeito de sair daqui,
disse o cômico ao ladrão
lá tem muita confusão,
Eu não tenho nenhum alívio (Jimi Hendrix)



[1] Por questões praticas a versão de cinema não contem esta informação. A versão do diretor é ainda maior do que a versão que assistimos na telona.

[2] Os contos do cargueiro negro é uma animação que na versão do diretor seria apresentada ao longo do filme, uma espécie de metanarrativa.

21 de mar. de 2010

Heroísmo pós-moderno no cinema

As primeiras adaptações de HQ (Histórias em Quadrinhos) para o cinema acabaram por ser malogradas. Porém, a primeira adaptação de X-men e principalmente Spider-man consolidaram as adaptações na indústria cinematográfica.
Segundo Gilles Lipovetsky, em O Império do Efêmero, a nossa sociedade vive em uma valorização do novo, por conta disso o padrão das adaptações tiveram que buscar novos rumos. Então Hollywood passou a olhar não apenas para os super-heróis, mas, passou ressignificar os super-heróis; como também passou a olhar para as HQs que não são de super-heróis. Entre as novas adaptações duas nos chama atenção em especial: Batman: The Dark Kingnight e Wacthman.
Um herói que recebe o título de cavaleiro das trevas de fato é no mínimo diferente, Batman, recebendo esta alcunha se torna o protótipo do herói pós-moderno. Solitário, traumatizado, valorizando em demasia os avanços tecnológicos e uma situação de inversão dos valores tradicionais dos super-heróis.
Em The Dark Kingnith, Batman se ver em confronto com o Coringa, porém, a nova roupagem do arqui-vilão trouxe um personagem reto em sua moral, inteligente, audaz, carismático e a cima de tudo incorruptível (qualidades digna de qualquer herói). Para vencê-lo, Batman tem de se corromper. Suas atitudes ao final do filme: suspensão de liberdades (através de uma maquina ele controla os conteúdos das ligações dos celulares da cidade), culminado em uma mentira para a população (Assumindo um crime que ele não cometera). Assim Batman assume características de um ditador, dentro do modelo platônico.
A grande questão é que o público passa a aceitar este tipo de heroísmo, a ética da utilidade passou a ser marcas dos heróis e não dos vilões. “Os fins justificam os meios” passou a ser o lema do heroísmo para o Batman e mais ainda em Watchman.
Em breve eu posto alguma coisa sobre Watcman.

14 de mar. de 2010

Sob o capuz: A tragédia dos super-heróis

Sob o capuz: A tragédia dos super-heróis
O nosso tempo nos coloca em situações complexas e a emergência da pós-modernidade criar uma sociedade cada vez mais esquizofrênica, o cinema pop hollywoodiano pode ser considerado termômetro destas transformações. Diante destas transformações as concepções dos super-heróis acabam por serem ressignificadas.
A condução de vida da nova roupagem de heróis trouxe em si problemas que afligem a nossa sociedade, a crise da pós-modernidade está ligada aos heróis de maneira intima de suas origens trágicas até as suas atuais questionáveis escolhas éticas.
Os quadrinhos de super-heróis estão ligados a tragédia nas origens dos heróis: Super-Man é o último de sua espécie enviado para a Terra por seus genitores para salva-lo da destruição de seu planeta natal; Batman e Spider-Man carregam o peso das mortes de entes queridos; Iron Man carrega a culpa de ver as armas projetadas pela sua empresa em massacres e genocídios.
O trágico faz parte da alegoria da formação dos super-heróis, os antagonistas em geral recebem poderes fantásticos de forma semelhantes aos heróis, porém, a falta do trágico em sua vida os leva a utilização de seus poderes de maneira egoísta.
Os super-heróis não são frutos de seus poderes, mas, filhos de suas tragédias. Ao decorrer da História as histórias em quadrinhos têm atenuado esta origem, heróis passaram a ser criado como aberrações como é caso do personagem: Spawn, o soldado do inferno, que é traído e morto por um amigo, no inferno recebe a chance de fazer um pacto com um demônio para conseguir obter sua vingança, porém, ele teria de comandar os exércitos infernais no Armageddon. Arrependido, Spawn passa a tentar impedir o próprio Apocalipse que através de suas ações fica cada dia mais eminente.
Spawn passou a ser uma das revistas mais vendidas em meados dos anos 90, seu drama é tentar evitar algo que ele mesmo é causa, mesmo com todos os seus poderes ele parece ser impotente diante da História em que ele está inserido. Talvez seja um dos grandes dilemas dos homens da pós-modernidade, o dilema de Spawn parecer ser o dilema do homem pós-moderno que se sente impotente e solitário diante dos rumos da História.
No final da primeira década dos anos de 2000, o universo Marvel
[1] se viu em situação de guerra, Civil War fez cair por terra à diferença entre heróis e vilões. Depois de um confronto entre pessoas dotadas de super-poderes uma escola com 600 crianças foi explodida, marcado por essa tragédia o congresso cria uma lei para fazer dos heróis funcionários de seu serviço de inteligência para melhor controlar suas ações e puni-los quando necessário. Porém, um grupo de heróis e vilões vê esta ação como um perigo as liberdades individuais e outro grupo de heróis vêem esta possibilidade como a melhor formar de servir a população. Então, Capitian America, o emblemático símbolo norte-americano, se coloca contra o estado liderando as ações de um grupo de heróis, enquanto o Iron Man passa a ser o seu oposto, subserviente a um estado que sempre fora crítico. Ao longo da trama os dois lados se mostram com argumentos racionais de um modo, que o leitor não pode dizer qual o lado que eticamente estaria certo.
Em Civil War a tragédia é capaz de mudar os rumos de uma história que tem na sua origem a tragédia, confrontos entre aliados, amigos e até mesmo parentes em defesa de pontos de vistas individuais, o pós-moderno se apoderou de vez do universo fantástico dos super-heróis.
Sem certo ou errado, as escolhas éticas dos heróis passam a ser a mesma que a dos seus leitores, causa e efeito em si mesmo, arte e vida em uma dialética de tensão, onde é impossível perceber o momento de superação.
A sétima arte, ao longo dos últimos 10 anos percebeu o potencial econômico das adaptações das histórias em quadrinhos. Porém, os altos investimentos nos filmes causaram um controle dos grandes estúdios que acabaram por maquiar as tragédias pessoais dos heróis. Porém, logo, as histórias contadas no cinema acabaram por não causarem mais tanto impactos quanto os primeiros filmes de super-heróis.
[1] A Marvel é principal editora de quadrinhos de super-heróis do mercado mundial.